Fernando Mendes

O olhar especial do artista para os processos de criação e fabricação com a madeira tornam suas peças singulares.

Um dos designers brasileiros mais conhecidos da atualidade, Fernando Mendes tem um olhar minuncioso para as possibilidades de uso da madeira, potencializando o encontro entre a arte de desenhar e de construir. Isso porque o artista não separa estes dois saberes, já que reconhece que trabalhar com as mãos é tão importante quanto exercitar o cérebro.

O fato de entender os processos de fabricação do material, pelo qual é apaixonado, é primordial para que seus desenhos ganhem curvas e inclinações que tornam suas peças tão especiais e exclusivas. Talvez fosse difícil ser diferente, já que, além do visível talento, o designer teve como mestre o renomado Sérgio Rodrigues – que admite com orgulho ser sua principal influência – com quem trabalhou fabricando peças. Nesta entrevista, o artista fala sobre seu processo de criação, sua técnica de fabricação e o que mais valoriza numa peça de design.

Cadeira Rê com formas curvas e femininas, em madeira freijó e couro, foi criada para Renata, a mulher do designer.
Banco Antônio, uma das peças preferidas de Mendes, em homenagem ao amigo que torneava suas peças.
A cadeira Aviador ganhou o Prêmio Design MCB 2008.
Poltrona Sapão, em freijó natural e couro natural.

Revista Ambientes: Você começou trabalhando com marcenaria na parte de construção das peças…
Fernando Mendes: Na verdade, eu sempre criei também. Meu trabalho de marcenaria sempre veio junto com o de design. Eu sempre produzi o que eu criei, sempre foi uma coisa ligada à outra. Para mim, todo o processo criativo leva totalmente em consideração como será a execução. E eu acho que o design também tem essa lógica construtiva: como vai ser feito, como é otimizado. Isso incorpora uma alma ao objeto.

R.A.: Então a criação é influenciada pelo processo de fabricação?
F.M.: Ela é interligada. Faz parte de um mesmo saber. A gente vive uma cultura ocidental muito fragmentada de acreditar que aquilo que é concebido na mente está separado e num grau mais elevado que a artesania, o artefato. O que é um equívoco, porque o trabalho manual desenvolve pensamento. O trabalho intelectual não é superior ao manual, e eu procuro integrar isso nas minhas criações.

R.A.: Por que a paixão pela madeira?
F.M.: O cheiro, a textura, o toque, a beleza… Esses são os aspectos que atraem num primeiro momento. E a madeira faz parte da história da humanidade, desde as fundações de Veneza até os dormentes de todas as tribos do mundo. Além disso, ela é um material essencialmente ecológico. Primeiro porque vem da natureza e se desfaz nela mesmo. E, depois, é renovável. É um material de uma riqueza ímpar. Não consigo imaginar qualquer outro que tenha essa plasticidade, essa gama de atuação e essa possibilidade ecológica.

R.A.: Que conceitos você diria que são bem próprios do seu trabalho?
F.M.: Um deles é o uso da técnica de encaixe, sem o uso de pregos. Acho que há um certo cuidado com as curvas, com o conforto, ter uma peça que seja agradável ao toque, gostosa de pegar, de sentar… Que te abraça.

R.A.: O que você mais valoriza numa peça de design?
F.M.: É a personalidade da peça. O quanto ela é capaz de expressar o porquê de existir. Se é uma peça formal, ou informal, ou técnica… Não importa. Mas que ela tenha a capacidade de transmitir algo a mais, de você olhar e ter vontade de dar um sorriso.

A Cadeira Santos Dumont, uma das peças preferidas de Fernando Mendes, foi uma homenagem do designer ao inventor do avião.
Poltrona Ventura feita por encomenda para Zuenyr e Mary Ventura.
Mesa Grampo em peroba do campo, inspirada nos utensílios da marcenaria. Suas garras são fixadas diretamente no tampo, integrando perfeitamente o vidro à madeira.
O banco Elp reproduz os veios da madeira, em peroba do campo com borboletas de madeiras diversas, sendo uma delas de prata 925.
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